Está nascendo um novo software…

(…mas não é no morro do pau da bandeira :( )

Musicologia é um bicho estranho nas universidades brasileiras. Tá certo que todo mundo que entra pra faculdade de música ou já sabe BEM o que quer cursar ou vai meio num chute. Na pós-graduação, isso se repete com os órfãos da graduação. Falando de uma forma bem grosseira, quem foca em tocar geralmente vai pra linha de Práticas Interpretativas, quem prioriza dar aulas olha pra linha de Educação & Música, compositores (e analistas, muitas vezes) para Composição… e (Etno)Musicologia normalmente recebe um pessoal que realmente quer fazer algo na área, mas que parece ter encarado seriamente o nome “musicologia” pela primeira vez naquele momento (comigo, e com um bom número de conhecidos, não foi diferente).

A primeira impressão é (ao menos, a minha foi e vi isso acontecendo com muitos colegas) que musicologia seria a mesma coisa que a disciplina ‘história da música’, da graduação. Isso seria o mesmo que dizer que Práticas se resume a ler notas numa partitura, pegar um instrumento e tocar as notas. Depois de dois semestres no mestrado, tendo aula com professores incríveis, meu ímpeto com Musicologia passou a ser um só: saber que diabo de coisa que é Musicologia.

Sem viagens filosóficas em torno da ESSÊNCIA MUSICOLÓGICA. Bem mais simples que isso, passei a procurar os autores mais reconhecidos (naquela de discurso de autoridade – extremamente efetivo nesse âmbito, feliz ou infelizmente), ler o que eles escrevem sobre a disciplina, ver que questões trazem, como abordam, aquela coisa toda. Nessas, reconheci o eterno embate quanti vs. quali na musicologia (ou talvez deveria dizer “nas musicologias”) e a bem-vinda superação da questão (pra alguns) a partir dos métodos mistos. Pessoalmente, nesses últimos dois anos e meio, tenho visto que pesquisas/análises/estudos mais exaustivos utilizam métodos mistos. Alguns trabalhos interessantes, principalmente sobre música brasileira nos séculos XIX e XX, têm passado até mesmo por levantamentos quantitativos essenciais, como listagens de pessoas ou peças musicais, às vezes quase como uma pura catalogação. É um pouco bruto demais (talvez nem fosse necessário ser da área de música pra fazer isso, exatamente), mas listagens desse tipo são incríveis pontos de partidas e “mapas” para os posteriores estudos permitidos por eles, sejam quanti, quali ou mistos.

Nessas leituras, principalmente nas do último semestre, me impressionou o número de ferramentas de análise assistidas por computador empregadas por musicólogos, analistas e compositores de renome. [alerta: vários sites que te lembrarão os anos 90] Humdrum, Music21, OpenMusic, Patchwork, PWGL, RUBATO [continuação do alerta: por favor, clique neste último]… não diria que foi um mundo se abrindo. Foram vários. Cheguei até a escrever um pequeno plugin para MuseScore (dá pra fazer a mesma coisa com Finale e Sibelius, mas o código aberto me atrai). A ferramenta que mais experimentei foi o OpenMusic. Achei incrível como ele alia programação visual (algo que muitos músicos conhecem de plataformas como MAX, Pd e afins) com tarefas simples de programação (com que estou acostumado principalmente pela minha prática quase diária com PHP, mas também de longa data…). Se você tem uma nota de altura X e literalmente soma um tom a ela, você fica com uma nota segunda acima. Simples, não? O melhor dessas plataformas é como elas te levam a fundamentos bem estruturados para trabalhar dados de música. Nisso, conheci midicents, por exemplo. É estranho que, depois de quase 15 anos lidando com midi (de maneira bobas, pelo visto), eu não conhecesse midicents. Antes tarde do que nunca! No exemplo anterior, um dó central (6000mc) somado a um tom (+200mc) gera um ré³ (6200mc). Se você inverte o intervalo, tem 6000mc + (-200mc) = 5800mc, ou Sib. Muito mais fácil de trabalhar em programação do que nome de nota…

O que me preocupou com o OpenMusic foram 1) um alerta de que ele não era mais mantido (o site diz 1998 – 2013 sobre o software embora o site mesmo tenha sido atualizado há nove meses) e 2) a própria dificuldade de interface do programa, que parece parada lá por 2000-2002 (pequenas coisas, como manter objetos em dimensões adequadas ou organizar visualmente um patch BEM, são tarefas um tanto quanto… difíceis, QUANDO POSSÍVEIS). Ficar com essa caixa preta de um aplicativo de desktop também é um pouco temeroso, ainda mais sem suporte. Um belo dia tudo sai do ar… Exportar algo sempre pode ser complicado, ainda mais com formatos melhores surgindo no mundo e não surgindo no OM.

Trabalhar com MuseScore também me abriu os olhos pro MusicXML, padrão interplataformas de dados musicais. Para um leigo, se me permitem, é um super arquivo formato midi. As vantagens são várias, incluindo diversos elementos visuais da partitura (metadados como título e compositor, nomes dos instrumentos, etc) e coisas importantíssimas como a diferenciação entre notas homônimas (isso decretou, pra mim, a morte dos .midi como transmissores de dados). Testei abrir um mesmo MXML no Finale, no Sibelius e no MuseScore e, tirando certas configurações de cada software, a música veio exatamente igual (ligaduras de frase, articulações, texto, quebra de sistema, etc).

Nisso, passei a pensar num pequeno aplicativo que respeitasse três princípios:

  • Foco de análise na notação (desculpem, caros arquivos de áudio)
  • Modular
  • Escrito em PHP (minha zona de conforto + possibilidade de web *E* aplicativo para desktops *E*, recentemente, android)

Depois de dez dias brincando com isso, como um hobby, cheguei a uma versão inicial de um aplicativo! Aê! Tenho programado em inglês, porque um belo dia pretendo abri-lo à comunidade internacional (muito mais pra receber um auxílio no desenvolvimento do que pra dominação mundial (ou não)). Até agora, ele realiza funções básicas e algumas já intermediárias:

  • contagem de compassos
  • contagem de partes (traduzindo de MusicXML, contagem de pentagramas)
  • contagem de notas e pausas escritas
  • contagem de notas e pausas soadas (duas pausas seguidas = uma pausa só)
  • extração das alturas de cada parte
  • cálculo dos intervalos entre as alturas de cada parte (olha aí as prévias de buscas por desenvolvimentos motívicos…)
  • extração das durações de cada parte
  • cálculo de um “ritmo comum” a todas as partes (se uma voz tem uma mínima e a outra duas semínimas, ambas as vozes podem ser escritas em duas semínimas – as da primeira voz ligadas)

Abaixo, seguem algumas imagens dos resultados obtidos a partir dos primeiros oito compassos do 15º quarteto de cordas (KV.421) do Mozart. Edições do quarteto, claro, estão no IMSLP [link direto pra partitura]. Tenha em mente que usei uma edição em XML, então talvez haja alguma diferença (mas, batendo o olho, acho que não).

q

O quadro inicial com as coisas mais simples que uma análise precisa: quantidades de partes, compassos, notas e pausas. O prefixo “Real” significa quantas notas/pausas diferentes soam, e não quantas estão notadas.

 

v

Gráfico de alturas tocadas pelo Violino 1 (o gráfico em si foi gerado no Excel, a partir dos dados extraídos do aplicativo. Sinceramente, só vou me preocupar com visualizações muito no futuro 😛 ).

 

p

Alturas utilizadas por cada um dos instrumentos. A opacidade de cada altura é dada pelo número de vezes que foi tocada (não consegui concluir qual das duas versões tinha melhor contraste pra tela, então fiz o upload das duas).